
Manutenção preventiva, capacitação e comunicação frequente serão os grandes aliados do síndico para enfrentar eventos climáticos extremos.
Um sinal de alerta máximo foi emitido com o avanço de um Super El Niño de proporções históricas em território brasileiro. Segundo boletim divulgado pelo INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) em 29 de junho, os reflexos devem se estender de forma severa pelos próximos meses.
Muito além de fomentar o debate sobre eventos climáticos extremos, a chegada do fenômeno promete impactar diretamente a rotina e a infraestrutura de condomínios. A combinação de calor recorde com períodos de tempestades torrenciais eleva drasticamente os riscos de destelhamentos, inundações em subsolos, quedas de árvores nas áreas comuns e sobrecarga em sistemas elétricos.
Diante disso, o momento exige dos gestores uma postura preventiva, sob pena de responderem civil e criminalmente por negligência diante de acidentes previsíveis.
Para entender quais são os efeitos das mudanças climáticas sobre o mercado condominial e as medidas preventivas que podem ser adotadas contra acidentes e danos estruturais, o SíndicoNet reuniu, nesta reportagem, sugestões de especialistas de diversos segmentos. Boa leitura!
Super El Niño: tudo que você precisa saber sobre o fenômeno
O fenômeno Super El Niño consiste no aquecimento anormal e severo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Segundo o Boletim Mensal nº 01/2026 do INPE, há uma probabilidade superior a 90% de que o fenômeno se estenda até o início de 2027, com chances reais de atingir uma intensidade “muito forte” entre a primavera e o verão. No entanto, os efeitos começam a ser sentidos a partir de julho de 2026.
Neste momento, os dados já são alarmantes: a anomalia térmica ultrapassa os 2ºC na região Niño 1+2 (próximo à costa sul-americana). O aquecimento global potencializa esses riscos, transformando a “chuva forte” em enchentes urbanas e o “calor de verão” em ondas de choque térmico que podem colapsar sistemas elétricos.
Para os condomínios, isso significa que a carga térmica sobre as fachadas e a infraestrutura de drenagem será testada em níveis superiores aos projetos originais de construção.
Macrorregiões do Brasil serão afetadas de forma diferente
Diferentemente de outros eventos climáticos que afetam o país de forma mais homogênea, o El Niño tem efeito regionalizado e é justamente essa diferenciação que deve orientar o planejamento dos síndicos.
Na Região Sul, a tendência para o trimestre de julho a setembro de 2026 aponta chuvas acima da média em grande parte do território. Embora a previsão sazonal indique probabilidade, e não magnitude, o cenário de precipitação persistente favorece a umidificação do solo, criando condições mais sensíveis para deslizamentos, inundações e enxurradas, especialmente caso ocorram episódios de chuva intensa em outubro e novembro.
Já a Região Norte deve enfrentar cenário oposto, com chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal. Bacias importantes, como as dos rios Madeira, Tocantins e Xingu, já entraram em seu período natural de recessão, e o possível fortalecimento do El Niño acende um alerta quanto à severidade da estiagem amazônica no segundo semestre.
Para os condomínios da região, a combinação de calor e baixa umidade eleva drasticamente o potencial de queimadas e incêndios florestais, com destaque para o arco sul da Amazônia, que reúne Mato Grosso, Rondônia e Acre.
Na Região Nordeste, a correlação histórica entre El Niño e episódios de seca é alta, e as previsões para 2026 confirmam a expectativa de menores volumes de chuva combinados a calor intenso. Apesar da melhora progressiva registrada no início do ano, mais de um terço do território nordestino ainda apresenta seca moderada, e o fenômeno deve dificultar a recuperação dos níveis do rio São Francisco, mantendo condições secas ao longo do segundo semestre.
A Região Centro-Oeste, por sua vez, é apontada como a faixa do país com maior potencial para episódios de ondas de calor recordes. O aumento das temperaturas intensifica a deficiência hídrica ao final do período seco, o que exige dos gestores atenção redobrada ao consumo de energia e à sobrecarga de sistemas de climatização.
Assim como na Região Norte, o trimestre de julho a setembro representa o período de maior pressão e risco de propagação de incêndios no Mato Grosso e arredores.
Por fim, a Região Sudeste vive um cenário de transição, com chuvas tendendo a ficar próximas à média histórica. As temperaturas mais elevadas, no entanto, exigem atenção especial. Em maio de 2026, partes de Minas Gerais já registravam seca grave, com tendência de intensificação em áreas do oeste mineiro em decorrência do fenômeno.
Qual o impacto das mudanças climáticas em condomínios?

Pontualmente, alterações no clima já são consideradas por síndicos e gestores durante a elaboração de um planejamento estratégico. No entanto, estudos apontam que nos próximos anos a gangorra meteorológica tende a ficar cada vez mais imprevisível.
Por acelerarem o desgaste natural da infraestrutura, essas intempéries não só representam um risco à segurança de moradores, mas também geram custos adicionais com manutenções a curto e longo prazo, especialmente quando os danos não são monitorados.
Na hora de comprar ou alugar um imóvel, os entrevistados elencaram as novas prioridades:
- Distante de morros/encostas que possam ter risco de deslizamento: 40%
- Imóveis em regiões mais altas, que não tenham risco de alagamento: 37%
- Local arborizado/próximo a áreas verdes: 26%
- Conforto térmico/ventilação/ar-condicionado: 26%
- Construções com materiais específicos/resistentes/protetores: 23%
- Painéis solares: 20%
- Captação e reutilização de água da chuva: 12%
- Telhado verde (vegetação plantada sobre um sistema impermeável): 6%
“Cidade submersa”: o relato de quem viveu as enchentes no RS

Passados dois anos das cheias que devastaram o Rio Grande do Sul, Cristiane Vargas ainda lembra dos momentos de angústia vividos em detalhes. Moradora de uma região próxima ao bairro Humaitá, uma das áreas mais atingidas de Porto Alegre, a diretora da AGADIE (Associação Gaúcha dos Advogados do Direito Imobiliário Empresarial) conta que nada preparou os gaúchos para tamanho desastre:
“A gente dorme numa cidade que já vinha sofrendo com o volume de chuvas, depois acorda com ela submersa. E no momento em que a gente vê isso, começa uma grande mobilização”, relata.
Segundo ela, foi nesse momento que a figura do síndico ganhou ainda mais protagonismo. Com a água chegando ao segundo pavimento em alguns prédios, os gestores condominiais passaram a coordenar retiradas de moradores e pedidos de socorro, muitas vezes sem qualquer apoio imediato do poder público. O estado contava, à época, com apenas quatro helicópteros para atender toda a operação de resgate.
“Os síndicos realmente se colocaram na linha de frente, puxando pessoas de dentro dos apartamentos, levando para locais seguros, aguardando a vinda de barcos. Teve gente que ficou a madrugada inteira, até a metade do outro dia, tentando que um resgate chegasse”, descreve.
Recursos básicos em falta, saques e obras perdidas
Com a cidade sem água e sem energia elétrica, síndicos passaram a administrar o racionamento interno para reduzir a dependência de caminhões-pipa, priorizando o abastecimento de hospitais, asilos e abrigos. Muitos condomínios também viraram pontos de arrecadação de mantimentos e centros de apoio para vizinhos desabrigados.
A insegurança também exigiu providências inéditas. “Muitos síndicos abriram mão de estar seguros e ficavam fazendo rondas de barco nos seus condomínios para evitar a entrada de pessoas que aproveitavam o caos para saquear apartamentos”, conta Cristiane.
No próprio prédio comercial, ela viveu de perto o impacto financeiro do desastre: uma reforma do hall de entrada, concluída poucos dias antes das cheias, foi destruída por 1,80 metro de água. Um prejuízo de mais de R$ 40 mil que exigiu nova assembleia extraordinária para aprovar reforma e reconstrução completa da casa de força, que ficava no subsolo.
Qualificação do síndico foi o grande legado da tragédia
Passado o momento mais agudo da crise, Vargas observa uma mudança duradoura no perfil de gestão condominial no Rio Grande do Sul. Segundo ela, diferentemente da pandemia — quando o síndico precisou assumir uma postura de autoridade e restrição —, as enchentes empurraram os gestores para uma postura de solidariedade e proximidade técnica com o funcionamento do próprio condomínio.
“O síndico orgânico começou a se apropriar do funcionamento do seu prédio. Ele não estava ali só para resolver conflito de convivência ou briga de assembleia, passou a buscar informações, a conhecer os equipamentos condominiais importantes para uma situação de desastre natural, os sistemas de segurança, os sistemas de esgoto”, explica.
Entre as mudanças mais concretas relatadas pela advogada estão a compra de geradores por condomínios que nunca haviam considerado esse investimento, a revisão de sistemas de drenagem e de esgoto e atenção redobrada à vedação de janelas e fachadas.
Além disso, um item que se tornou consenso entre síndicos gaúchos: a contratação de seguro deixou de ser opcional. “Não tem um evento de síndico que eu faça que alguém não me faça uma pergunta sobre seguro. Seguro virou algo que os condomínios não questionam mais”, afirma.
Temporada de chuvas também preocupa outros estados

Com as fortes chuvas que atingiram o interior de São Paulo entre outubro e novembro de 2023, o síndico profissional Alain Ângelo precisou gerenciar transtornos em diversos condomínios, que englobavam de calhas entupidas à queda de muros.
Porém o caso que mais exigiu esforços foi a descompactação de solo que provocou o afundamento na garagem de um residencial. Para dar início à reestruturação, que teve um custo avaliado em R$ 480 mil e conclusão prevista em um ano e meio, todas as vagas precisaram ser quebradas. Logo, durante o processo, não haverá espaço para estacionamento no local.
Em entrevista ao SíndicoNet, ele relatou dificuldades para ter acesso ao seguro, num processo que se arrasta há mais de um mês. Enquanto isso, os R$ 300 mil acumulados no fundo de reserva do condomínio foram utilizados para arcar com os custos das obras e laudos técnicos, aumentando ainda mais a tensão de moradores.
“Eles se sentem impotentes e até mesmo enganados pela construtora, então há um peso adicional em lidar com essa responsabilidade de afirmar que é seguro continuar ali, apesar do que ocorreu. Muitas vezes, como síndicos, nos culpamos por não ter previsto esse tipo de incidente, mas acho importante lembrar que não somos super-heróis”, detalha Alain Ângelo.
Entre gestores condominiais, a preocupação com a temporada de chuvas é constante, afinal são muitos os danos decorrentes de temporais: alagamentos, deslizamentos de terra, queda de raios, entre outros.
Em alguns casos eles podem até mesmo ser reincidentes, como conta Alexandre Torres, síndico do prédio onde mora.
“Dez anos atrás uma erosão surgiu no pátio e, após uma forte chuvas em São Bernardo do Campo, o mesmo buraco reapareceu. Acionamos técnicos da Defesa Civil e um engenheiro particular, que atestaram se tratar de um problema na galeria de águas pluviais. A grande preocupação é o fato de estarmos em período de férias e já termos encontrado crianças brincando próximas ao local.”
3 orientações técnicas para evitar problemas com manutenção e acidentes
Para a gestão condominial, a iminência de novos eventos climáticos extremos, como o Super El Niño, passa a exigir ações de contingência.
As fortes tempestades e vendavais elevam drasticamente o risco de destelhamentos, quedas de fiação e árvores, falhas elétricas e inundações severas. Paralelamente, as ondas de calor intenso sobrecarregam transformadores e disjuntores devido ao uso contínuo de ar-condicionado.
Para mitigar acidentes e evitar prejuízos financeiros de grande escala ao patrimônio coletivo, os síndicos devem focar em uma gestão condominial preventiva, antecipando-se aos meses mais críticos.
Na avaliação do síndico morador e conselheiro no Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo), Joni Matos Incheglu, dois fatores básicos determinam a segurança de edificações: um projeto bem executado e manutenções periódicas.
“Se esses itens forem observados, mesmo com todas as intempéries e a oscilação climática, dificilmente você terá algum problema”, ressalta.
Ainda segundo Incheglu, o apoio de profissionais habilitados é imprescindível para se enquadrar às normas técnicas vigentes, especialmente com relação aos subsistemas mais expostos aos eventos climáticos extremos, como para-raios e juntas de dilatação da estrutura.
Confira abaixo, três orientações dos engenheiros especialistas em manutenção predial, Laura Mitterer e Felipe Lima, para evitar transtornos no seu condomínio.
1. Identificação e correção de vulnerabilidades
Principalmente com relação a condomínios mais antigos, localizados em regiões litorâneas e encostas, é preciso se atentar a vulnerabilidades que podem não ter sido avaliadas na época de sua construção.
Vale ressaltar que a aprovação de órgãos municipais competentes e a supervisão de técnicos com registro ativo são obrigatórias. Procure conhecer a legislação local.